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11.4.11

Eu transito, você ama.

transitar (z)
v. tr.

(trânsito + -ar)
1. Passar ou andar; fazer caminho. = percorrer
2. Mudar de lugar, de estado, de condição.


Eu transito, você ama.

- E se transitar é percorrer, eu o faço porque sou viva. Vejo o verbo transitar como um viver impulsivo, uma queda derradeira ou uma paixão avassaladora. E transitar também é mudar de estado, de condição. Transitar é viver, como disse. Não há trânsito sem mudanças. Não há trânsito sem deslocar algo. Mesmo que este algo seja algo além do seu corpo e caia mais no plano metafisico.

            Ela acende mais um cigarro. Bebe dois goles e meio de cerveja.

- Sabe? Ora e outra gosto de analisar meus pequenos trânsitos insolentes, acredito que tenho muito o que pensar sobre. Sinto-me estranha quando estou a programá-los. Prefiro a execução, o ato, o contrato comigo de fazê-lo. E logo. Como programar o que é para ser um impulso? Como deslocar, mudar e sair de condição sem que haja programação? É, ambíguo, eu sei.

            Ele enche o copo novamente.

- Eu amo você.

           Ela finge ignorar. Bebe o copo inteiro.

- Acredito também (ora muito, ora menos) em acasos, descasos, sarcasmos, colapsos e muitos asos perdidos. Só não me faça crer nos pleonasmos do amor. Era nesse ponto que queria chegar: são puros exageros, muito alcoólicos para mim. Ápice de virtudes que mais tarde serão intoleráveis até ao simples olhar.

             Ele a olha fixamente, engole seco. A garganta está seca. O último gole da cerveja já quente. Paralisa. Sente frio e ajeita o copo para direita, alinhando-o ao dela.

- Deixemos de besteiras! Faça-me um favor? Traga mais uma dose de cachaça. Para nós dois. Hoje é nosso dia.

              Ela acende o cigarro. Ele pega dois copos de cachaça, acende um cigarro. Ele quer acreditar - e faz isso com toda convicção - que nela ainda exista alguma coisa, qualquer resto de amor. Ela quer acreditar que ele não perceberá que nada existe. Ela não quer magoar, mas não tem culpa. Não mais. Despiu-se de toda culpa quando começou a se admirar.

27.3.11

A noite anterior.

suspiro: s. m. 1. Respiração anelante causada por dor ou paixão que move o ânimo. 2. Indício de desejo veemente. 3. Fig. Gemido, ai, lamento. 4. Som doce e melancólico. 7. Bot. Nome comum à saudade e à perpétua.



        Suspirado pensa, estala os dedos, fuma o cigarro com gosto de saudade. Suspirando sente, relembra, fuma o cigarro com gosto de maldade. Suspirando se aflige, senta, prende os cabelos. Suspirando pára, levanta, liga a vitrola, acende o cigarro. Nada mudaria aquele instante de compreensão. Um compreender solitário, com um pouco do gosto da amargura, com o drama de não conseguir controlar seus sentimentos. Para ela, nada mais infame do que se descontrolar sozinha. O cigarro está esquecido no cinzeiro, a fumaça compreende todo quarto, a blusa ainda cheira a noite anterior. Solta o cabelo, acende outro cigarro, resolve fazer um chá para acalmar a garganta que arranha só de pensar. Nada era mais injusto do que pensar naquele momento. Um tom de lamúria e solidão irremediável. Um amargo na boca, uma ansiedade incontrolável. Apoiada à beira do fogão, esperando a água ferver, só conseguia fixar o pensamento na noite anterior. Nada mais bastava, nenhuma ideia contextualizada... só a noite anterior. Seria o veneno da vontade? Seria a vontade sem razão? Não fazia sentido voltar àquela noite. Nem em pensamento. "Foi apenas uma noite. Garanto que foi apenas". E assim queimou os dedos com a fumaça maldosa que insistia em lhe esquentar as unhas. Derramou um tanto d'água na pia, não achava o sachê de camomila. Procurava e pensava "Não, eu me conheço. Isso é típico do dia seguinte." Achou o sachê. Acendeu o cigarro. Foi à janela, tragava sem parar. Gostava de tragar e olhar para a brasa. Parecia que sempre seria eterna, era um tanto sensual, um pouco dramático. Gostava de pensar assim. Sentia-se bem. O chá ia esquentando o corpo, aos poucos. E a cada gole, a cada trago e a cada olhada para lua pensava: "Não é possível, não pode ser".